Seja bem - vindo forasteiro,
Eis aqui o seu repouso filosófico. Não importa de onde chegas, muito menos o seu destino, desde que contemple-nos com a sua intelectualidade, sua dívida para conosco estará paga. Este espaço tem a intenção de unir pensamentos e idéias, das mais diversas possíveis, não importando que estas estejam em formato de textos ou frases, desde que sejam capazes de tocar nosso imaginário e nosso coração, já será Arte e assim já terá algum valor.
Uma promessa de morte
Riccardo Di Benedetto
O mestre sempre me ensinara que a palavra é o que torna um guerreiro forte. A voz é uma manifestação da alma, ela não pode ser escutada apenas pelo mero ato de ouvir, mas de alguma forma o próprio espírito de Yggdrasil pode sentir-la. O espírito sabe identificar nossa verdadeira voz, a verdade que existe por trás de qualquer palavra.
A palavra, a promessa de um mestre das quatro espadas é algo que deve ser cumprido, pois é sua própria palavra quem determina quem ele é. Um mestre das quatro espadas não pode mentir para si mesmo, assim como não pode mentir para Yggdrasil. Seu maior juramento é: Cada palavra dada é palavra cumprida. Um guerreiro sempre deve acreditar em suas palavras, pois só assim ele poderá possuir a verdadeira autoconfiança e um guerreiro que não pode confiar em si mesmo jamais será digno de algo, pois para que a força de vontade de um guerreiro exista ele primeiro deve acreditar em suas capacidades e sem força de vontade não há guerreiro. Um guerreiro não pode lutar por algo em que não confia e um guerreiro que não confia mais em si próprio já não pode mais lutar por si mesmo e nem por aquilo que ama...
É assim que nos tornamos mestres das quatro espadas, aprendendo a usar nossa verdadeira voz, a palavra infalível, a palavra que chegará sempre pura aos ouvidos de Yggdrasil. É essa voz verdadeira que pode comandar cada parte do nosso ser e permitir que uma espada se torne quatro ao invés de uma. Nossas quatro partes: o corpo, o espírito, a mente e a essência. Quatro partes, quatro guerreiros e uma única voz. É assim que um mestre das quatro espadas se replica em quatro guerreiros de mesma força para lutar. Lutar em nome de sua palavra.
Como mestre das quatro espadas eu fiz duas promessas, acabar com a Praga e jamais permitir que a minha família e todos aqueles que amo sejam levados por ela. Essas foram as promessas que ecoaram aos ventos das grandes planícies de Kogawa. Não demorou muito e a hora de cumprir minhas promessas havia chegado. Era uma tarde fria e sombria quando o pequeno Mormm estava encolhido nos braços de minha esposa e então os gritos perambularam por todo o vilarejo. “A praga! Os demônios!”
A Praga havia chegado aos portões de nosso vilarejo, os demônios destroçavam nosso povo e incendiavam nossas casas. As quatro espadas se ergueram e nós lutamos contra cada demônio e cada ser que surgia da escuridão, mas eram muitos e o vilarejo já não tinha mais escapatória, a Praga já cobrira quase tudo, estava avançando rápido demais, não seria possível mais escapar dela. Nunca havíamos visto a Praga se comportar dessa maneira e então o medo tomou conta de mim, o sangue corria frio em minhas veias. Eu sabia que o mais forte guerreiro poderia resistir a tudo, até mesmo à Praga, mas mesmo suspeitando que não pudesse ser tão forte eu sabia que se fosse engolido eu apenas não seria mais um guerreiro. Mas o que eu estava dizendo, eu sou um mestre das quatro espadas, eu dei minha palavra quanto a Praga, eu tinha a força de vontade para vencer! Eu confiara que podia sobreviver até mesmo no interior das trevas, mas e quanto aos outros que jurei proteger? Como poderia manter minha palavra, como poderia impedir que eles fossem engolidos por ela? Eu percebi que naquele momento eu havia falhado, eu não acreditava que podia salvar-los e não era capaz de possuir essa fé. Logo eu seria engolido junto a todos, mas eu não podia permitir. A Praga podia levar meu corpo se quisesse, mas jamais permitiria que levasse o deles, eu prometi! Eu prometi que eles jamais seriam engolidos por ela. E então que me veio uma decisão de última instância, eu não poderia cumprir minhas duas promessas, mas ainda não era tarde para salvar a minha família. A Praga era pior que a morte, então antes eles morressem por minhas próprias mãos do que se tornassem demônios na Praga. Foi então que minhas quatro espadas se tornaram uma, uma única espada que sangrou com o sangue de meu filho e minha amada, o último sangue que veria antes da Praga finalmente me engolir nas sombras.